segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Visão do Jogo - Badijé

Drummond de Andrade refletindo sobre Badijé
Tinha uma pedra no meio do caminho. E ela se chamava Badijé. Ninguém sabe com que motivação algum ser humano sai de casa para atrapalhar. Mas Badijé acordou em um ensolarado domingo e resolveu que aquele seria o dia em que ele iria fazer merda. Levantou da cama, rumou para o Campo do Grilo, e no caminho visualizou mil e uma maneiras de cagar tudo. Com seu dedo de pântano e seus cartões vermelhos, desgraçou um jogo que prometia ser um dos melhores do campeonato. Com isso, o esperado confronto entre Ovelha e Tcha³ ficou no quase. E o elenco ovelhense amargou a primeira 'derrota', perdendo lugar no G4 do Regional.

Tudo caminhava bem para uma tarde de bom futebol. Os dois times chegaram no campo sem atrasos, tudo pronto pro jogo. A bola começou a rolar e as duas equipes criaram e marcaram bastante, dando mostra que o jogo seria de qualidade. Mas no meio do caminho tinha uma pedra: Badijé. Ele estava de TPM, talvez esse tenha sido o problema. Ou não, ele acordou pra atrapalhar. Primeiro, não viu ou não quis ver pênalti em Bruno Max. Quando o time justamente reclamou, Badijé adotou postura de macho. Estilo Coronel Justino. "Cala a boca e vai jogar sua bola. Não fala comigo". Ele não tava pra brincadeira. Mais marcações equivocadas, mais reclamações do Ovelha. Mais chiliques de Badijé. Até aí tudo bem, 'toma lá, dá cá', coisas do futebol.

Aí a bola saiu para escanteio do Ovelha. O time já havia levado perigo por duas vezes na bola aérea anteriormente. Podia ser uma chance clara de gol. Mas Badijé estava lá, no meio do caminho. Era ele a pedra. E ele resolveu marcar tiro de meta, mesmo com toda a equipe do Tcha³ posicionada para tirar a bola da área, o que evidencia que o escanteio foi claro. Peri, capitão, mais uma vez reclamou. Mais uma vez com razão. "Você tá doido? É escanteio". Badijé não gostou da falta de cortesia do camisa 3. Sacou o cartão amarelo. Talvez tenha esquecido da maneira como se dirigia aos jogadores. Peri mais uma vez reclamou. Achou injusto o cartão amarelo. Levou o vermelho. E aí a confusão começou.

Ninguém do Ovelha gostou da expulsão injusta do capitão, claro. Foram reclamar com Badijé. Mas pera lá! Não pode! Badijé é magnânimo, intocável e onipotente. Badijé é tão poderoso que ele tem o direito de empurrar os jogadores. E ele fez. Mesmo sem ser tocado por nenhum jogador, Badijé empurrou o meia Phael no peito. Levou um tapa na mão, claro. Vermelho pra Phael. Mas que ousadia! Impedir que Badijé te empurre? Tolice. Fez o mesmo com Lucas. O zagueiro não aceitou ser empurrado por Badijé e foi pra cima. Foi contido antes de chegar ao árbitro. Mesmo assim foi expulso (não perca a conta, até agora foram três). Aí Bruno Max se revoltou. Quis partir pra cima de Badijé. Xingou. Pegou a bandeirinha de escanteio. Foi ao mato e pegou uma pedra. Não aquela pedra que sempre estava no meio do caminho, pois essa era Badijé. Pegou uma pedra de cinco quilos e foi pra cima do juiz. Expulso. No meio do bolo, o atacante Filipe proferiu algumas palavras desagradáveis e foi o quinto agraciado com o vermelho.

E aí o impasse se formou. Como nem Badijé sabia quem ele tinha expulsado, como continuar o jogo? Uns deram sugestão de abandonar a partida. Outros, de remarcá-la. O presidente adversário ansiava por compensar o w.o. sofrido na primeira rodada. Miro, chefe dos árbitros, tentou interferir. Mas não adiantava. Lá estava Badijé. Mãos na cintura, parado, imponente. Mesmo quieto, dava pra saber o que passava em sua cabeça. "Hoje acordei pra fazer merda. E fiz". Ele estava tenso por fora. Mas feliz por dentro. Ficou decidido que o jogo recomeçaria, com o Ovelha com cinco a menos em seu plantel, sendo quatro titulares. Monteiro entrou em campo, tirou a camisa duas vezes e foi expulso. Pronto. Fim de jogo. Três pontos para o Tcha³, 'derrota' para o Ovelha e a redenção de Badijé. A pedra que sepultou um dos melhores jogos do campeonato.

Agora o Ovelha vai buscar os pontos perdidos. Infelizmente não se pode dizer que "vai com tudo buscar os pontos perdidos". Porque Badijé não gosta de merda pouca. Quando ele faz merda, ele faz direito. Além de sugar três pontos do Ovelha, Badijé deixou seu legado de seis suspensões. Ainda assim, bola pra frente. Entre acertos e erros do nosso time, nada prevalece sobre a indignação de ser prejudicado por alguém que acordou pra atrapalhar. Nada como saber que um terço do campeonato nos foi roubado por Badijé. Agora resta saber a quem punir. À quem só queria jogar futebol ou à pedra que estava no meio do caminho...

PS: Especialmente hoje, a visão do jogo foi feita pelo escritor Carlos Drummond de Andrade, que depois de presenciar a atuação de Badijé, redefiniu seu conceito sobre o que é uma pedra no meio do caminho.